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Por uma Igreja samaritana


Sábado, 13 de julho de 2019


Imagem | Por uma Igreja samaritana

Tendo respondido ao doutor da Lei o que é necessário para possuir a vida eterna, Jesus é surpreendido com a pergunta do mestre da Lei sobre  quem é o próximo.
 
Para os judeus eram tidos como próximo os membros da própria família, os amigos, vizinhos, os membros da mesma tribo e, excepcionalmente, aqueles que habitavam a terra de Israel.
 
Jesus não se submete a esta lógica calculista, mas vai muito além dela. Para ele próximo é todo aquele que precisa da nossa presença, do nosso tempo, do nosso socorro.
 
Mas, para Jesus a questão mais importante não é identificar quem é o próximo, mas de quem me faço próximo. E para ilustrar este argumento, Jesus conta uma parábola (cf. Lc 10, 25-37).
 
O personagem principal da parábola contada por Jesus é um samaritano. É alguém a quem os judeus querem distância. Ainda hoje, judeus e samaritanos, embora membros da mesma nação, não têm relações amistosas, tratam-se como inimigos. Surpreendente é a atitude daquele samaritano: ele se desvela por aquele desconhecido abandonado na estrada.
 
O caminho de Jericó a Jerusalém era chamado no tempo de Jesus o “caminho do sangue”. Era um lugar perigoso, propício aos assaltantes que se aproveitavam das muitas curvas para as emboscadas. Aquele homem abandonado à beira da estrada  certamente fora vítima de algum grupo de assaltantes que não só o roubaram, mas o agrediram e o deixaram ali ferido e desacordado.
 
O samaritano usa com aquele homem de uma compaixão extraordinária. Ele vai além de toda medida. Bastaria que ele prestasse os primeiros socorros, talvez enfaixasse as feridas e deixasse para o próximo peregrino a tarefa de completar o que faltara. Mas, não! Ele cuida das feridas, ele as enfaixa, coloca sobre a sua cavalgadura, confia o a hospedaria mais próxima, deixando a quantia necessária para que o estranho fosse tratado e pudesse se recuperar o quanto antes, prometendo que ao retornar havia de saldar a dívida que porventura ficasse.
 
É um amor sem medida, é um amor que ultrapassa o preconceito e faz pouco da inimizade; é um amor que chega ao exagero.
 
Encerrando a conversa com o doutor da Lei, Jesus termina dizendo: “Vai e faze a mesma coisa”. É a ordem de Jesus que se estende  todos e em todo tempo. Para entrar na vida eterna é preciso calibrar a vida com o amor samaritano.
 
Mas, isso não se refere apenas a cada um de nós que o ouvimos, mas também à toda Igreja. Toda Igreja é verdadeiramente missionária se ela for samaritana. O Papa Francisco utiliza a expressão: se a Igreja for “um hospital de campanha”, pronto para acolher os feridos, os mutilados, os necessitados de seus cuidados e de sua atenção.
 
As DGAE (2019-2023) dizem que as comunidades “precisam ser oásis de misericórdia no deserto da história” (n. 132); que elas expressam a sua missionariedade quando “assume os compromissos que colaboram para garantir a dignidade do ser humano e a humanização das relações sociais” tais como gestos de acolhida, amparo na tribulação, consolação no luto, defesa de direitos e sede de justiça. Isso pede que a comunidade missionária desenvolva a cultura da proximidade, do encontro e do diálogo com as diversas realidades” (n. 117).
 
Fique para nós a ordem de Jesus “Vai e faze a mesma coisa”. Esta é a condição para entrarmos no Reino: fazermo-nos próximos dos que precisam de nossa presença e cuidado.
 

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Sobre o Autor


Dom Milton Kenan Junior

Dom Milton é o 6º bispo da Diocese de Barretos. E-mail: dommilton@diocesedebarretos.com.br

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